Guia · Brasil

Caixa de gordura: os quatro tipos da NBR 8160, o que pode entrar nela e o que a soda cáustica faz

Em resumo
  • A NBR 8160 define quatro tipos pelo número de cozinhas: CGP (18 L), CGS (31 L), CGD (120 L) e CGE.
  • A caixa especial se dimensiona por fórmula: V = 2N + 20, em litros, com N no turno de maior afluxo.
  • Recebe pia da cozinha, churrasqueira e lava-louças. Chuveiro e máquina de lavar roupa, não.
  • Soda cáustica e água fervente são proibidas: derretem a gordura e a empurram para o cano seguinte.
  • O resíduo é lixo comum. Nunca vai para a fossa nem para o vaso sanitário.
Atualizado em 21 de agosto de 2026 — a frequência não é a mesma para todos

As fontes recomendam limpeza a cada 6 meses em residências, a cada 3 meses em apartamentos, mensalmente em bares e pequenos restaurantes e semanalmente em grandes estabelecimentos e fast-food.

O apartamento aparece com intervalo menor que a casa, e a razão é a mesma da fórmula V = 2N + 20: o que importa é a gordura por unidade de tempo, não por morador.

Um fast-food produz, em uma semana, o que uma casa produz em seis meses. A caixa não sabe quem cozinha; sabe quanto passa por ela.

Repare que a caixa não sabe quem cozinha. Sabe quanto passa por ela. Um fast-food produz numa semana o que uma casa produz em seis meses, e é essa a lógica de toda a tabela de frequências.

Seis meses em residência, três em apartamento, mensal em bar ou pequeno restaurante, semanal em grande estabelecimento e fast-food. Quatro números, uma lógica.

Um fast-food produz numa semana o que uma casa produz em seis meses. É essa a lógica de toda a tabela de frequências, e é a mesma da fórmula V = 2N + 20, que usa o turno de maior afluxo.

A caixa de gordura é a peça mais barata do sistema de esgoto de uma casa e a que mais decide quanto tempo o sumidouro vai durar. Ela custa uma fração de tudo o que vem depois dela, e um comentarista brasileiro descreveu, sem saber, exatamente o que acontece quando ela não existe:

Esse sistema de esgotamento sanitário tem um erro, a falta de uma caixa de gordura , que permita fazer a limpeza periódica . O que provoca o entupimento do sistema a a gordura da cozinha.

Comentário no vídeo "Fossa Séptica Transbordando! E AGORA? Bactérias Para Limpeza/BIOL200 Funciona?", canal Nutrivet Agropecuária, YouTube

Ele está certo, e o mecanismo tem nome técnico: colmatação. A gordura que passa da cozinha para a fossa não decanta como lodo nem sai com o efluente. Ela impermeabiliza as paredes do sumidouro, e um sumidouro impermeabilizado não infiltra mais nada.

Os quatro tipos, e por que são quatro

A NBR 8160 não classifica a caixa de gordura por tamanho de casa. Classifica por número de cozinhas atendidas.

TipoCozinhasVolume de retençãoDiâmetro internoSepto submerso
CGP — pequena1 (residencial)18 litros0,30 m0,20 m
CGS — simplesaté 231 litros0,40 m0,20 m
CGD — dupla2 a 12120 litros0,60 m0,35 m
CGE — especialmais de 12, ou cozinha coletivapela fórmulaprismática, base retangular0,40 m

A caixa especial — restaurantes, hospitais, escolas — tem altura molhada de 0,60 metro e se dimensiona por uma fórmula que cabe numa linha:

V = 2N + 20

onde V é o volume em litros e N é o número de pessoas servidas no turno de maior afluxo. Não o número de refeições do dia; o pico.

Pessoas no picoVolume necessário
2060 litros
50120 litros
100220 litros
200420 litros
5001.020 litros

Repare no salto entre a CGP residencial, de 18 litros, e a CGD de 120. Doze cozinhas cabem numa caixa de 120 litros; uma cozinha precisa de 18. A retenção de gordura não escala com o número de pessoas — escala com a quantidade de gordura que passa por unidade de tempo, e é por isso que a fórmula da caixa especial usa o turno de pico e não o total diário.

1 2 3 4 5 6 7
A caixa não filtra nada. Ela desacelera a água o suficiente para que a gordura suba, e usa um septo para impedir que ela desça pelo cano de saída.
  1. Entrada — só a pia da cozinha, a churrasqueira e a lava-louças.
  2. A camada de gordura — flota. É a crosta que se retira com pá ou concha.
  3. A água — a faixa limpa do meio, a única que deveria sair.
  4. Os sólidos pesados — restos de comida que decantam no fundo.
  5. O septo submerso — 0,20 m nas caixas pequena e simples, 0,35 m na dupla, 0,40 m na especial. É ele que obriga a saída a puxar água do meio, e não gordura de cima.
  6. Saída — para a caixa de inspeção, e daí para a fossa séptica.
  7. A tampa de inspeção — o único acesso. Se estiver enterrada, a caixa não existe na prática.

O que a caixa realmente faz (e não é filtrar)

Não há filtro dentro de uma caixa de gordura. Não há tela, não há carvão, não há membrana. O que existe é tempo e um septo.

A água da pia entra, e a caixa a desacelera. Nesse intervalo, três coisas se separam por densidade: a gordura sobe, os restos pesados de comida descem, e no meio fica água relativamente limpa. O septo submerso — 0,20 m na caixa pequena, 0,35 m na dupla, 0,40 m na especial — mergulha abaixo da linha d’água e obriga a saída a puxar dessa faixa do meio.

Toda a engenharia está aí. É por isso que uma descarga forte estraga tudo: a água entra depressa demais para separar, e sai levando a gordura junto.

E é por isso que a profundidade do septo cresce com o tamanho da caixa. Quanto mais gordura acumulada, mais espessa a camada de cima, e mais fundo precisa mergulhar o septo para continuar puxando água limpa de baixo dela.

Quando a crosta atinge a altura do septo, a caixa deixa de funcionar sem dar sinal nenhum. Não entope, não transborda, não cheira. Só passa gordura adiante, silenciosamente, para a fossa e para o sumidouro. Esse é o motivo de o intervalo de limpeza ser um número e não uma sensação.

Como se limpa, sem inventar nada — agosto de 2026 Três passos e uma proibição.
PassoDetalhe
1. Proteçãoluvas e máscara
2. Retirada da crostapá ou concha, à mão, da superfície
3. Volumes maioressucção por caminhão limpa-fossa
Proibidosoda cáustica e água fervente

Se a crosta já chegou ao septo submerso — 0,20 m nas caixas pequena e simples — a gordura passou. Nesse ponto, o que está em jogo não é mais a caixa: é o sumidouro.

É a mesma lógica da fórmula V = 2N + 20, que usa o turno de maior afluxo e não o total de refeições do dia. Gordura por unidade de tempo: essa é a variável.

Se a crosta já chegou ao septo submerso — 0,20 m nas caixas pequena e simples — a gordura passou. Nesse ponto o que está em jogo não é mais a caixa: é o sumidouro.

E a caixa não avisa. Não entope, não transborda, não cheira. Só deixa passar.

O apartamento aparece com intervalo menor que a casa — três meses contra seis — porque o que importa é a gordura por unidade de tempo, e não o número de moradores.

O que pode e o que não pode entrar

Esta é a parte que quase toda obra brasileira erra, e o erro é caro.

A caixa de gordura deve receber exclusivamente os despejos da pia da cozinha, da churrasqueira e da máquina de lavar louças.

Chuveiro e máquina de lavar roupa não podem ser ligados a ela. Devem seguir para a caixa de inspeção ou diretamente para a rede de esgoto ou para a fossa. O motivo é hidráulico: são grandes volumes de água em pouco tempo, e uma descarga de máquina de lavar atravessa a caixa arrastando a camada de gordura que ela levou meses para acumular — exatamente a gordura que a caixa existia para reter.

A sequência correta é uma só, e ela não admite trocas:

Imóvel → Caixa de Gordura → Caixa de Inspeção → Fossa Séptica → Filtro Anaeróbio → Sumidouro.

A caixa de gordura entra antes da fossa séptica, nunca depois. Uma caixa instalada depois do tanque recebe efluente já clarificado, sem gordura para reter — e a gordura, que já passou, está fazendo o seu trabalho no sumidouro.

Por que soda cáustica é a pior ideia

Preciso limpar uma caixa de gordura que está muito muito suja e que joga para a fossa. Consigo desengordurá-la sem voltar cheiro pra cozinha? Se aplicar na fossa ela diminuirá o volume da massa sem transbordar?

Comentário no vídeo "Enzimas bactérias para limpar esgoto, fossa, caixa de gordura, ralo, mictório, vaso sanitário, pia.", canal Forte Util, YouTube

A tentação é dissolver. As fontes são explícitas: soda cáustica e água fervente são desaconselhadas, porque apenas derretem a gordura temporariamente e a levam para a tubulação adiante.

Pense no que isso significa. A gordura derretida não desaparece: ela viaja alguns metros pelo cano, esfria, e volta a solidificar — agora num ponto onde não existe tampa de inspeção, nem pá, nem concha. Você trocou um problema acessível por um problema enterrado.

A limpeza correta é chata e funciona: luvas, máscara, e uma pá ou concha para retirar a crosta sólida da superfície. Em volumes maiores, sucção por caminhão limpa-fossa.

E o resíduo retirado é lixo comum. Vai em saco plástico resistente, para o rejeito. Nunca para a fossa, nunca para o vaso sanitário — nas fontes, a advertência é literal, porque é ali que ele causa entupimentos graves no sistema de tratamento.

Me cobraram 200,00 pilas pra limpar a minha caixa, vou acabar encarando eu mesmo :D. Vlw pelo vídeo

Comentário no vídeo "COMO LIMPAR CAIXA DE GORDURA da sua CASA - Faça você mesmo", canal Meu canal na Real, YouTube

Duzentos reais para retirar dezoito litros de crosta. É defensável pagar, e é perfeitamente defensável fazer você mesmo — desde que a crosta vá para o lixo e não para o ralo.

De quanto em quanto tempo

A frequência não é a mesma para todos, e a diferença é grande.

Intervalo de limpeza recomendado
Residênciaa cada 6 meses
Apartamentoa cada 3 meses
Bar ou pequeno restaurantemensal
Grande estabelecimento, fast-foodsemanal
Barra proporcional ao intervalo, não à quantidade de gordura. Um fast-food produz em uma semana o que uma casa produz em seis meses.

O apartamento aparece com intervalo menor que a casa, e a razão é a mesma da fórmula V = 2N + 20: o que importa é a gordura por unidade de tempo, não por morador.

18 Lvolume de retenção da caixa residencial (CGP)
0,30 mdiâmetro interno da CGP
V = 2N + 20a fórmula da caixa especial, em litros
6 meseslimpeza em residência
50 mg/Llimite de óleos vegetais e gorduras animais (CONAMA 430)
20 mg/Llimite de óleos minerais (CONAMA 430)

É obrigatória, e há multa

Sim, é obrigatória para imóveis com cozinha.

Nacionalmente, quem rege o projeto e a execução é a NBR 8160. Para serviços de alimentação, a ANVISA, pela RDC 216/2004, exige caixas de gordura com dimensões compatíveis e em bom estado de conservação. E há legislação municipal específica — a Lei 4.991/2009 de Maceió, o Código Sanitário Municipal do Rio de Janeiro.

O descumprimento pode gerar notificação, interdição e multa. Procuramos o valor exato da multa nas fontes e ele não está lá; preferimos dizer isso a estimar.

De quanto em quanto tempo limpar?

6 meses em residência, 3 em apartamento, mensal em bar ou pequeno restaurante, semanal em fast-food.

Por que apartamento com mais frequência que casa?

Porque o intervalo segue a gordura por unidade de tempo, não o número de moradores.

Como sei que estou atrasado?

Se a crosta alcançou o septo submerso, a gordura já está passando.

Por que o turno de pico e não o dia inteiro?

Porque a caixa retém gordura por unidade de tempo, e o pico é quando ela satura.

Quantas vezes por ano numa casa?

Duas: a cada seis meses.

Por que apartamento a cada 3 meses?

Porque passa mais gordura por unidade de tempo pela mesma caixa.

O limite que quase ninguém conhece

A Resolução nº 430 do CONAMA fixa, para o lançamento de efluentes, o limite de 20 mg/L para óleos minerais e 50 mg/L para óleos vegetais e gorduras animais.

Cinquenta miligramas por litro é pouco. Uma frigideira lavada com água quente entrega bem mais que isso ao cano — e é essa a razão de a caixa existir, e a razão de ela ficar antes de tudo o resto.

Passado esse ponto, a gordura faz duas coisas. Na fossa séptica, forma crostas rígidas que causam entupimento, mau cheiro e transbordamento. No sumidouro, impermeabiliza as paredes e o fundo, e ali o dano não se desfaz: um sumidouro colmatado por gordura não volta a infiltrar por descolmatação simples.

Tem uma cobra cega querendo sair do ralo da minha pia da cozinha imaginem, o rapaz da manutenção disse que ela está morando na caixa de gordura imaginem o meu desespero de abrir essa caixa e essa cobra saltar pra fora do quintal kkkk

Comentário no vídeo "COMO LIMPAR CAIXA DE GORDURA da sua CASA - Faça você mesmo", canal Meu canal na Real, YouTube

O comentário é engraçado e diz algo sério: a caixa de gordura é o único ponto do sistema que um morador abre com as próprias mãos, e é o único onde a manutenção depende inteiramente dele. Ninguém vai lembrá-lo.

Análise do editor

Existe uma assimetria absurda neste assunto. A caixa de gordura residencial retém dezoito litros e custa quase nada. O sumidouro que ela protege custa, pela mediana nacional do SINAPI, R$ 3.362,97 — e quando a gordura o colmata, não há descolmatação que resolva, porque a gordura não é matéria orgânica que o solo degrade: é uma película.

Ou seja: a peça de dezoito litros protege a peça de três mil e trezentos reais, e é a única das duas que exige uma tarde do dono da casa a cada seis meses. É por isso que praticamente todo sumidouro brasileiro que falha cedo falha por gordura, e não por dimensionamento.

Três coisas, se você lê só isto. Primeiro: abra a caixa e olhe. Se a crosta chegou ao septo, você está meses atrasado. Segundo: retire a crosta com pá e mande para o lixo — soda cáustica só muda o endereço do problema. Terceiro, e o mais importante: verifique onde está ligado o cano do chuveiro e o da máquina de lavar roupa. Se algum dos dois entra na caixa de gordura, ela está sendo lavada toda semana, e não está retendo nada.

Para entender o que a gordura faz depois de passar, leia como funciona a fossa séptica e o guia do sumidouro. Se o sintoma já apareceu, veja fossa séptica entupida. E dimensione a sua com a calculadora de caixa de gordura.

Perguntas frequentes

Quais são os tipos de caixa de gordura da NBR 8160?

Quatro, definidos pelo número de cozinhas atendidas. Caixa de Gordura Pequena (CGP), para 1 cozinha residencial: volume de retenção 18 litros, diâmetro interno 0,30 m, parte submersa do septo 0,20 m. Caixa de Gordura Simples (CGS), até 2 cozinhas: 31 litros, 0,40 m de diâmetro, septo submerso 0,20 m. Caixa de Gordura Dupla (CGD), de 2 a 12 cozinhas: 120 litros, 0,60 m de diâmetro, septo submerso 0,35 m. E a Caixa de Gordura Especial (CGE), para mais de 12 cozinhas ou cozinhas coletivas: formato prismático de base retangular, altura molhada 0,60 m e septo submerso 0,40 m.

Como se dimensiona a caixa de gordura especial?

Pela fórmula V = 2N + 20, onde V é o volume em litros e N é o número de pessoas servidas no turno de maior afluxo. Um refeitório que serve 100 pessoas no turno de pico precisa de 220 litros; um de 500 pessoas, 1.020 litros.

De quanto em quanto tempo limpar?

As fontes recomendam a cada 6 meses em residências, a cada 3 meses em apartamentos, mensalmente em bares e pequenos restaurantes, e semanalmente em grandes estabelecimentos e fast-food.

Posso usar soda cáustica?

Não. Soda cáustica e água fervente são desaconselhadas porque apenas derretem a gordura temporariamente, levando-a para a tubulação adiante — onde ela volta a solidificar, agora fora do alcance da caixa. A limpeza correta é manual, com luvas, máscara e uma pá ou concha para retirar a crosta sólida; em volumes maiores, sucção por caminhão limpa-fossa.

O que pode ser ligado à caixa de gordura?

Exclusivamente os despejos da pia da cozinha, da churrasqueira e da máquina de lavar louças. Chuveiro e máquina de lavar roupa não podem ser ligados ali: devem ir para a caixa de inspeção ou diretamente para a rede de esgoto ou para a fossa.

Onde a caixa de gordura entra na sequência?

Antes da fossa séptica ou da rede coletora. A sequência correta é: imóvel → caixa de gordura → caixa de inspeção → fossa séptica → filtro anaeróbio → sumidouro.

Rafael Duarte

Pesquisador e editor de saneamento rural

Pesquisa e edita guias independentes de saneamento descentralizado, cruzando as normas ABNT NBR 7229/13969, preços reais e a experiência de moradores.

Continue lendo